Na educação a distância (EaD) a presença e a participação ganham novos significados
A educação a distância (EaD) é um processo de educação baseado nas tecnologias da informação e comunicação (as chamadas TICs), no qual os alunos e professores geralmente não estão fisicamente presentes no mesmo espaço, nem no mesmo horário. O aluno é autônomo para determinar qual o melhor horário para interagir com as informações e discussões propostas. Mas, se a presença física é menos importante, na EaD cresce a necessidade do aluno mostrar suas opiniões: são elas que garantem ao professor que o aluno – em processo de formação – está do outro lado da tecnologia.
“Se no ensino presencial o importante é o aluno estar lá e responder à chamada, na EaD a presença se faz através das inter-relações entre esse aluno e seus professores, colegas – que não estão no mesmo local que ele – e com as informações propostas, que ficam disponíveis naquele receptáculo virtual”, explica Eliane Schlemmer, consultora na área de Educação Digital e Educação a Distância e pesquisadora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em Porto Alegre.
É essa inter-relação, completa a pesquisadora, que garante que aquelas informações vão se transformar em conhecimento. A aprendizagem se dá nesse processo de estabelecimento de relações entre o conhecimento que o sujeito já possui e a nova informação, a fim de atribuir-lhe significado. Mas engana-se quem pensa que um curso no formato EaD é mais fácil do que um presencial. Para toda vantagem, há um custo.
Vantagens e responsabilidades
“As vantagens da EaD são muitas: atingem alunos que estão em localidades distantes, onde não há uma instituição de ensino – seja ela de ensino superior, de especialização ou de pós-graduação – ou então aqueles cujos horários podem não ser compatíveis com um curso presencial. Além disso, pode também ser o ideal para aqueles que não se dão bem com o ensino tradicional”, aponta Marcos Telles, consultor de EaD e um dos fundadores do DynamicLab, empresa especializada em projetos de ensino e educação através das TICs. “Mas existe um perfil de quem se beneficia de EaD: são aqueles alunos que conseguem se organizar com facilidade”, diz.
Opinião similar tem Fredric Michael Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed). “O aluno de EaD tem que ser proativo, ou seja, não depender de cobrança para realizar suas responsabilidades. E precisa ter grande poder de concentração e disciplina pois, ao contrário da escola, o ambiente de EaD pode ser mais heterogêneo, com atividades concorrentes ao estudo”, indica.
Educação continuada
Da mesma forma que os alunos, o perfil dos professores quando o assunto é EaD também precisa ser diferente. “Existem professores com perfil ‘on-line’ e ‘off-line’. Isso é normal. Existem novas competências que são exigidas do professor quando ele desenvolve a docência online. Os com perfil ‘off-line’ têm uma menor interação com a tecnologia e normalmente são adeptos do jargão ‘não mexe que estraga’”, afirma Schlemmer.
Para o perfil de EaD, que é baseado em TICs, acrescenta a pesquisadora, é o inverso: os professores precisam estar preparados para lidar com alunos que justamente aprendem mexendo. Além disso, é importante que esse professor também tenha tido contato com a EaD no papel de aluno. “É complicado saber trabalhar com um processo do qual se conhece apenas uma das pontas. É preciso, em algum momento, estar no lugar de aluno a distância para poder dar significado a como se aprende nessa modalidade”, expõe Schlemmer.
Segundo Litto, existe diferença entre a competência legal e a competência real. “Para a EaD é preciso mais do que o diploma. É preciso ter interesse em desenvolver algo que vá além da lógica aprendida, para lidar com a sala de aula presencial”, enfatiza.
Outra característica, apontam os especialistas, é a necessidade desses professores – que vão agir como tutores do processo de aprendizado – saberem lidar de diversas formas com tecnologias diferentes. A internet, do ponto de vista técnico, é apenas um protocolo de conexão. Nela, existem muitas formas de apresentar as informações, como textos, vídeos e podcasts, entre outros. Porém ainda há tecnologias que saem do padrão da tela do computador, como é o caso dos celulares, sem contar com os aparatos tecnológicos que ainda não se popularizaram.
“Os professores de EaD precisam testar esses limites e potencialidades. Afinal é esse ambiente de interação que vai amenizar, e muito, o sentimento de isolamento inicial sentido pelos alunos. Em algumas entrevistas com alunos de EaD, por exemplo, eu já ouvi a frase ‘o mundo é mudo’, quando eles querem dizer que muitas atividades realizadas com os colegas e professores são baseadas em texto, ou seja, de forma ‘silenciosa’”, conta Schlemmer. A pesquisadora relata que há diferenças claras entre as diferentes gerações de alunos. “Aqueles mais jovens sentem falta de ambientes mais dinâmicos, com tecnologias multimídia, algo que para os outros alunos não era essencial”, exemplifica. O que esses alunos não podem imaginar é que os primórdios da EaD já foram muito mais silenciosos e distantes.
O ensino literalmente a distância
Muito antes da popularização da internet, e consequentemente, do aparecimento da EaD, já existiam diversas experiências – bastante eficazes, de acordo com diversas pesquisas citadas pelos especialistas – com o ensino a distância.
“Conceitualmente, a diferença básica entre as formas de educação a distância está na possibilidade de ação e interação constante entre o aluno e o professor e entre os próprios alunos, mediados por um ambiente colaborativo e cooperativo, sendo que muitas vezes há presença do professor/tutor em contato constante e praticamente em tempo real com o aluno”, explica Schlemmer. No ensino a distância praticado antes do advento das TICs havia apenas a instituição – que fornecia materiais educativos, roteiros de exercícios, testes e, ao final de um período, organizava testes presenciais; e os alunos, que normalmente enviavam os exercícios de volta à instituição para serem corrigidos, faziam uma prova, ao final do curso, para obtenção do diploma. Em algum momento poderia haver a figura do professor e mesmo aulas presenciais, mas não era regra geral.
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No início, autoaprendizado
Uma das primeiras experiências do tipo data de 1858, quando a Universidade de Londres
começou a enviar kits de cursos diversos para alunos em suas colônias. “Foi através desse
tipo de iniciativa que Nelson Mandela (principal representante do movimento antiapartheid e
ex-presidente da África do Sul), muitos anos depois, estudou Direito enquanto vivia na prisão”, conta Litto. Nos Estados Unidos, a Universidade de Chicago tinha programas similares para atender alunos de áreas rurais. Na Austrália e Finlândia, os motivos para o ensino a distância
era a baixa densidade demográfica, que não viabilizava a construção de escolas ou campi universitários em determinadas regiões do país. No Brasil, o Instituto Monitor, fundado em 1940,
foi uma das primeiras experiências na área, apesar dos cursos serem ligados ao
desenvolvimento técnico. De forma similar, o Instituto Universal Brasileiro surgiria alguns anos depois. Experiências com aulas via rádio também datam de meados do século XX, com o
Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e o Senac (Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial) apostando na tecnologia disponível na época. “Esses são exemplos
do chamado autoaprendizado. O aluno recebia o material (que tinha que ser bastante didático), havia alguns com kits específicos – como o de eletrônica – e fazia o curso por própria conta, algumas vezes fazendo um teste final”, explica Telles. Anos mais tarde, na década de 1970,
o Telecurso Segundo Grau, ministrado através da televisão, também contribuiria para a
educação de jovens e adultos. Em 2000, este programa sofreu modificações e ganhou versões
em VHS e, depois, em DVD. Variações do curso incluíam classes presenciais com o apoio de professores/monitores..
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Diminuindo as distâncias
Quando a internet se popularizou, entretanto, todas as outras tecnologias ficaram relegadas a segundo plano e os métodos, quase na totalidade, migraram para essa nova plataforma. E foi por meio dessa nova mídia que a EaD se consolidou. Novos formatos e discussões sobre a viabilidade de cursos mais extensos e complexos – como ensino médio e superior, além das especializações e pós-graduações – tomaram corpo.
Em 2005, foi fundada a Universidade Aberta do Brasil (UAB), uma iniciativa Federal que oferece cursos de nível superior; e, em São Paulo, o Programa Universidade Virtual do Estado de São Paulo – Univesp, lançado em 2009, também caminha para a consolidação de um modelo similar no Estado.
“O crescimento dos cursos de EaD nos últimos seis anos, no Brasil, chegou aos 900%. Foi uma expansão veloz, talvez reflexo de uma demanda reprimida. É positivo por um lado, pois esse número indica mais alunos sendo atendidos: nas instituições de ensino superior que têm o curso presencial e a distância, cerca de 23% se formaram no formato exclusivo EaD”, comenta Litto.
O ponto negativo é que há uma falta de profissionais especializados – professores principalmente – que atendam a essa demanda no curto prazo.
Em outro campo paralelo, os números também crescem: os cursos oferecidos dentro das empresas. “Vão de cursos técnicos a especializações ou treinamentos específicos que não dependem mais de estrutura física. Cargos cujas rotinas são flexíveis – envolvem viagens e pouco tempo no escritório da empresa – agora também podem se atualizar de forma flexível”, contextualiza Telles.
Uma queda na qualidade dos cursos, todavia, não assusta os especialistas. Todos garantem que a EaD – graduações, especializações e pós – é um modelo já consolidado e que os problemas são idênticos aos oferecidos nos cursos presenciais: há projetos muito bons e outros nem tanto. As escolhas pedagógicas ideais para o curso e seu público, um corpo docente bem-preparado e os métodos pensados de forma adequada, são essenciais para o sucesso e qualidade desses cursos – que, aliás, são observados de perto pelo Ministério da Educação (MEC).
“Os brasileiros se dão muito bem com a tecnologia e têm grande facilidade para gerir processos criativos em audiovisual. Isso é um indicativo de sucesso. Além disso, o EaD atende a diversas demandas do país, que passam pela melhoria do acesso à educação de qualidade, pela facilidade de ser uma ótima opção à escola ou faculdade presencial – inclusive em regiões isoladas geograficamente, mas que têm acesso a internet via satélite – e da formação de mão de obra especializada de forma rápida e eficiente”, relata Litto.
Outro aspecto importantíssimo, recordado por Schlemmer, é o desenvolvimento social regional que o EaD pode trazer às cidades pequenas. “Muitos alunos das novas gerações não precisarão mais ter que escolher entre ficar nas suas cidades ou se deslocar para centros maiores para conseguir um ensino de qualidade. Isso ajuda a melhorar a qualificação do jovem, que poderá continuar junto à sua família e à sua comunidade. É um reflexo positivo que normalmente não se considera, mas que é cada vez mais sensível.”
http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/preunivesp/2300